domingo, 26 de janeiro de 2014

Abertura, espera, pergunta e resposta


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     Alguém pode nos ver em sala de aula e falar: "Olhe lá, várias pessoas sem fazer nada". Se for retirado o elemento da sua espera, o que sobra? Quase nada. A sua espera é fundamental, ela define o que acontece em sala de aula. Você dirá: "Hoje a aula valeu" ou "Hoje a aula não valeu" se acontecer algo que corresponde à sua espera, não é um acaso.
      - É um sentido.
     É um sentido, mas é espera de que aconteça algo. Se converso com você, não posso entrar em relação só nos termos que eu conheço de antemão. Não seria me relacionar com você a não ser que espere emergir algo, o acontecer da sua pessoa agora (ou afirmaria um esquema).
     Ao aceitar levantar da cama, há uma espera. Quando me volto para você há uma espera, quando você se volta pra mim há uma espera.
     Entendemos bem o que seja espera quando nos referimos àquele silêncio que acontece entre eu fazer uma pergunta e receber a resposta: silêncio que é abertura, atividade. Sem a atitude de expectativa de uma correspondência, expectativa de que aconteça alguma coisa que realmente valha a pena, sem essa atitude pode acontecer o que for, não me toca. O nos caracteriza não é o que sei, mas o que preciso que aconteça. E mais: o que eu preciso que aconteça pode ser pouco claro pra mim, mas ele é totalmente definidor de mim.
     Nesse sentido, a espera se expressa como perguntas, que emergem em nós: "Está valendo à pena? Sim, mas por que vou lá hoje? Por que isso está acontecendo comigo? Que sentido tem tudo isso? Para onde isso vai me levar? A quê isso serve?". Essas perguntas pedem respostas consistentes. Você não aceitaria qualquer resposta. Você pode não saber exatamente a resposta, mas sabe se uma reposta dada tem a ver ou não.
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   Note bem: trata-se de espera de uma resposta. Muito se fala sobre a intensidade do viver, intensidade da busca, como se nos bastasse buscar por nos dar adrenalina, densidade. Não. Essas perguntas esperam respostas, essas perguntas nos dão possibilidades de identificar aspectos de respostas adequadas às nossas exigências, nos dão sensibilidade. Ouvi uma pessoa que trabalha experimentando comidas em restaurantes dizer como é difícil fazer isso muitas vezes ao dia e ter de comer sem vontade. Que dificuldade é ter um juízo sobre uma comida que se prova sem fome! É justamente a nossa exigência de beleza, de justiça, de verdade, que nos permite identificar elementos de beleza, de justiça, de verdade. Podemos tentar nos esquivar: "Ah, mas temos exigência de que seja plenamente e nunca vai ser...". Mas essa exigência de que seja plenamente vai nos ajudar a identificar onde é que estão os elementos que realmente valem a pena e, ao identificá-los, viver uma realização. 
(Miguel Mahfoud)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

De olho no próprio critério

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"Você pode ter levantado esta manhã sem saber dizer o que esperar do dia, mas alguns acontecimentos lhe fazem dizer: "Ganhei o meu dia! O dia de hoje valeu à pena!" Como pode chegar a dizê-lo com clareza? Porque você compara aquilo que está acontecendo com uma espera e por meio dela você pode chegar a afirmar: "isso tem a ver, isso não tem a ver". Não se refere ao planejamento do dia, mas a uma espera que o habita ainda que até então você não tivesse dado atenção à ela; tem a ver com o motivo pelo qual você levantou hoje, mesmo que não tenha refletido sobre ele. Não sabemos com clareza o que esperamos, não sabemos bem que dinâmica é essa; no entanto, aquela espera é um critério muito claro: emerge uma dor quando algo não tem a ver; quando chegamos a afirmar que algo tem a ver conosco emerge o desejo profundo de adentrar mais. Poderíamos até temer, ficar incomodados, deixar pra depois... Mas sabemos que algo ali nos corresponde."
(Miguel Mahfoud, 2012).

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Experiência que dá unidade

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"Pensem na experiência do adolescente:
- 'Meu braço é fino, meu nariz é grande, meu cabelo não é como o daquele modelo...'

Todo complicado consigo mesmo porque não é o que deveria ser. De repente, se surpreende olhado por aquela garota e se descobre. Mas se descobre porque ele olha para alguém que olha para ele: desfoca o olhar de um detalhe e outro, e afirma o ser - próprio e do outro contemporaneamente - e brota um desejo de bem para a vida, um ideal, um posicionamento político, um desejo de que a vida seja isso ou aquilo, uma radicalidade crítica. Põe o dedo na ferida apontando incoerências e vai se tornar muito exigente, com seu motor humano muito ativo. Mas toda aquela exigência, enquanto ele não se percebia olhado, eram complicações amontoadas" (Miguel Mahfoud, 2012).


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